Por Douglas Silvano — Professor de Educação Física — CREF nº 040024-G/SC

O ensino médio brasileiro representa uma das etapas mais importantes da formação educacional, pois marca um período de transição entre a adolescência e a vida adulta.

É nessa fase que muitos estudantes começam a definir seus interesses profissionais, considerar o ingresso no ensino superior e construir perspectivas para o futuro.

Como professor de Educação Física, acredito que preparar os jovens para esses desafios exige muito mais do que oferecer conteúdos e aplicar avaliações.

É necessário garantir aprendizagem, desenvolver autonomia, valorizar os professores e construir uma escola capaz de dialogar com as necessidades das novas gerações.

O ensino médio brasileiro e os desafios da aprendizagem

O ensino médio ocupa uma posição estratégica na educação básica brasileira. Além de consolidar conhecimentos desenvolvidos durante o ensino fundamental, essa etapa precisa ampliar a capacidade dos estudantes de interpretar informações, resolver problemas, desenvolver argumentos e compreender diferentes situações da sociedade.

Entretanto, considero que um dos principais desafios está em garantir que todos os jovens concluam essa fase com conhecimentos compatíveis com sua formação.

As dificuldades acumuladas durante os anos anteriores podem comprometer o acompanhamento das disciplinas e limitar as possibilidades de aprendizagem.

Segundo os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025, divulgados pelo Inep em agosto de 2026, o indicador do ensino médio brasileiro passou de 4,3 para 4,5 entre 2023 e 2025, considerando conjuntamente as redes públicas e privadas. Na rede pública, o índice avançou de 4,1 para 4,3.

Os resultados demonstram uma evolução que merece reconhecimento, mas também revelam a necessidade de manter esforços para melhorar a aprendizagem.

Na minha visão, avaliar a qualidade do ensino médio significa observar não apenas o desempenho em exames, mas também as condições oferecidas para que os estudantes desenvolvam conhecimentos e possam utilizá-los em diferentes situações da vida.

A transição do ensino fundamental exige acompanhamento pedagógico

A chegada ao ensino médio representa uma mudança importante na rotina escolar. Os estudantes passam a lidar com conteúdos mais complexos, novas exigências acadêmicas e expectativas relacionadas ao futuro profissional. Entretanto, nem todos iniciam essa etapa com a mesma preparação.

Dificuldades de interpretação textual, matemática e organização dos estudos podem interferir no aproveitamento das disciplinas.

Quando esses problemas não são identificados e acompanhados, existe o risco de que se acumulem, tornando a aprendizagem progressivamente mais difícil.

Os resultados brasileiros do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022, publicados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em dezembro de 2023, apontaram que apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos avaliados alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em matemática. Em leitura, esse percentual foi de 50%.

Embora o Pisa avalie estudantes de determinada faixa etária, independentemente da série cursada, seus resultados ajudam a compreender os desafios relacionados à consolidação de conhecimentos essenciais.

Recuperar aprendizagens sem comprometer novos conteúdos

Acredito que as instituições de ensino precisam desenvolver estratégias capazes de identificar dificuldades logo no início do ensino médio.

Avaliações diagnósticas, acompanhamento pedagógico e atividades de recuperação podem contribuir para evitar que determinados estudantes avancem sem compreender conhecimentos fundamentais.

Entretanto, essas iniciativas precisam ser incorporadas ao planejamento escolar. Não considero adequado responsabilizar exclusivamente o professor por dificuldades estruturais que exigem recursos, organização institucional e políticas educacionais permanentes.

As mudanças no currículo precisam chegar à realidade das escolas

A organização curricular do ensino médio brasileiro passou por transformações importantes nos últimos anos. Essas alterações provocaram debates relacionados à formação geral, aos itinerários formativos, à carga horária e às possibilidades de escolha oferecidas aos estudantes.

A Lei nº 14.945, de 31 de julho de 2024, estabeleceu novas diretrizes para essa etapa da educação básica.

Entre as mudanças, está a previsão de uma formação geral básica com carga horária mínima total de 2.400 horas no percurso regular, articulada aos itinerários formativos. A legislação também prevê regras específicas para a formação técnica e profissional.

Na minha avaliação, qualquer reorganização curricular precisa considerar uma questão fundamental: as mudanças propostas precisam ser possíveis de executar nas instituições de ensino.

Alterações na legislação não garantem automaticamente que as escolas possuam professores, materiais, espaços e condições necessárias para desenvolver todas as atividades previstas.

Flexibilidade curricular precisa representar oportunidades reais

A possibilidade de aprofundar conhecimentos em diferentes áreas pode contribuir para aproximar a formação escolar dos interesses dos estudantes. Entretanto, considero importante que essa flexibilidade não resulte em desigualdades entre instituições que possuem estruturas muito diferentes.

Um jovem matriculado em uma escola com maior disponibilidade de profissionais e recursos pode encontrar possibilidades distintas daquelas oferecidas em unidades menores ou localizadas em regiões mais afastadas.

Por isso, entendo que a implementação curricular exige planejamento, acompanhamento e colaboração entre os sistemas de ensino, respeitando as características regionais sem comprometer o direito à formação básica.

A evasão escolar continua sendo um obstáculo para o futuro dos jovens

Garantir a permanência dos estudantes no ensino médio representa um dos desafios mais importantes da educação brasileira. Embora essa etapa seja fundamental para a continuidade dos estudos, diferentes fatores podem interferir na frequência e na conclusão escolar.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, em 2024, aproximadamente 76,8% dos jovens de 15 a 17 anos frequentavam o ensino médio ou já haviam concluído essa etapa.

O indicador demonstra avanços em relação a anos anteriores, mas evidencia que parte da população dessa faixa etária ainda não se encontrava na etapa adequada ou já a havia concluído.

Dificuldades financeiras, necessidade de trabalhar, problemas familiares e defasagens de aprendizagem estão entre as situações que podem interferir na trajetória educacional.

Entretanto, acredito que essas questões precisam ser analisadas sem generalizações, considerando as particularidades de cada estudante.

Permanecer na escola também depende de condições sociais

Uma iniciativa voltada à permanência escolar é o Programa Pé-de-Meia, desenvolvido pelo Ministério da Educação, instituído pela Lei nº 14.818/2024. O programa oferece incentivos financeiros a estudantes elegíveis do ensino médio público, buscando estimular a frequência e a conclusão dos estudos.

Considero que políticas dessa natureza reconhecem a importância das condições econômicas na trajetória educacional. Entretanto, o apoio financeiro precisa estar associado a escolas estruturadas, aprendizagem adequada e acompanhamento das necessidades dos estudantes.

Não basta garantir que um jovem permaneça matriculado. É necessário oferecer condições para que conclua essa etapa com conhecimentos e oportunidades compatíveis com suas necessidades.

Preparar os jovens para o mercado de trabalho sem limitar suas escolhas

Uma das discussões mais frequentes sobre o ensino médio envolve sua relação com o mercado de trabalho. Muitos estudantes começam a pensar na profissão que desejam exercer, enquanto outros precisam conciliar a formação escolar com atividades profissionais.

Acredito que a escola precisa contribuir para esse processo, mas considero importante evitar que a preparação para o trabalho seja compreendida exclusivamente como treinamento para determinadas ocupações.

O desenvolvimento de competências relacionadas à comunicação, à interpretação de informações, à resolução de problemas e à capacidade de aprender continuamente possui importância em diferentes profissões. Essas habilidades também contribuem para a participação social e para o exercício da cidadania.

A formação técnica pode ampliar possibilidades profissionais

A educação profissional e tecnológica representa uma alternativa relevante para estudantes interessados em desenvolver conhecimentos específicos e buscar qualificação para determinadas atividades.

Entretanto, entendo que a formação técnica não deve substituir o acesso aos conhecimentos gerais necessários à continuidade dos estudos. Os jovens precisam ter condições de buscar uma profissão, ingressar no ensino superior ou construir outros projetos de vida.

Na minha visão, uma educação comprometida com o futuro precisa ampliar as possibilidades de escolha, e não restringi-las antecipadamente de acordo com a condição econômica ou a origem social dos estudantes.

O ensino superior, o Enem e a construção dos projetos de vida

Para muitos jovens, concluir o ensino médio representa uma oportunidade de ingressar no ensino superior. Nesse contexto, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) possui relevância por ser utilizado em diferentes processos de acesso a instituições públicas e privadas.

Entretanto, considero que preparar os estudantes para o Enem não deve significar transformar toda a experiência escolar em uma sequência de treinamentos para avaliações.

O desenvolvimento de conhecimentos sólidos, da interpretação crítica e da capacidade de argumentação possui importância que ultrapassa os resultados de um exame.

A escola também precisa reconhecer que nem todos os estudantes possuem as mesmas perspectivas profissionais. Alguns desejam ingressar imediatamente em universidades, outros procuram cursos técnicos, enquanto parte dos jovens ainda está construindo seus interesses.

Projeto de vida precisa respeitar a realidade dos estudantes

O desenvolvimento de projetos de vida está contemplado nas diretrizes nacionais do ensino médio. A legislação reconhece a importância de oferecer oportunidades para que os jovens reflitam sobre suas possibilidades de desenvolvimento, participação social e inserção profissional.

Na minha visão, esse trabalho precisa acontecer sem impor escolhas antecipadas. A adolescência é marcada por descobertas, mudanças de interesse e construção gradual da autonomia.

Acredito que a escola pode contribuir oferecendo informações sobre profissões, cursos, instituições de ensino e possibilidades de qualificação. Também considero importante desenvolver atividades que estimulem o autoconhecimento e a capacidade de tomar decisões fundamentadas.

A tecnologia e a inteligência artificial exigem novas competências

A transformação digital modificou diferentes setores da sociedade e também influencia as expectativas relacionadas à formação dos estudantes. Ferramentas de inteligência artificial, plataformas digitais e sistemas automatizados passaram a integrar atividades acadêmicas e profissionais.

Essas mudanças tornam importante discutir o desenvolvimento de competências digitais no ensino médio. Entretanto, acredito que aprender a utilizar recursos tecnológicos não significa apenas conhecer aplicativos ou dominar equipamentos.

Os jovens precisam desenvolver capacidade de avaliar informações, identificar fontes confiáveis, proteger dados pessoais e compreender os limites das ferramentas digitais.

O pensamento crítico torna-se especialmente importante diante da circulação de conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.

O professor continua indispensável na aprendizagem

A tecnologia pode oferecer recursos interessantes para pesquisa, organização de estudos e desenvolvimento de atividades pedagógicas. Entretanto, considero equivocado imaginar que essas ferramentas possam substituir integralmente a orientação oferecida pelos profissionais da educação.

O professor desempenha funções relacionadas ao planejamento, à avaliação, à mediação dos conhecimentos e ao acompanhamento das dificuldades dos estudantes. Essas responsabilidades exigem competências pedagógicas que não se resumem à apresentação de informações.

Na minha avaliação, a modernização educacional precisa acontecer com formação continuada, infraestrutura adequada e participação dos docentes nas decisões sobre a utilização das tecnologias.

A valorização dos professores e a estrutura escolar são fundamentais

O funcionamento adequado do ensino médio depende diretamente das condições de trabalho oferecidas aos profissionais da educação. Professores precisam planejar atividades, acompanhar a aprendizagem e adaptar suas estratégias às diferentes necessidades das turmas.

Acredito que essas responsabilidades exigem remuneração adequada, formação continuada, tempo para planejamento e recursos pedagógicos compatíveis com os objetivos curriculares.

A infraestrutura também possui relevância. Laboratórios, bibliotecas, espaços tecnológicos, salas adequadas e ambientes destinados às práticas esportivas podem ampliar as possibilidades de aprendizagem e permitir diferentes experiências educacionais.

A expansão da jornada escolar representa outro aspecto que merece atenção. Segundo o Censo Escolar de 2025, divulgado pelo Inep em fevereiro de 2026, o percentual de matrículas presenciais em tempo integral no ensino médio da rede pública passou de 16,7%, em 2022, para 26,8%, em 2025.

Considero importante reconhecer esse avanço, mas também compreender que ampliar o tempo de permanência na escola exige planejamento. Alimentação, transporte, profissionais qualificados e atividades pedagógicas diversificadas são condições necessárias para que essa ampliação represente oportunidades concretas de aprendizagem.

Educação Física, esporte e formação integral no ensino médio

Como professor de Educação Física, considero que preparar jovens para o futuro envolve reconhecer a importância da formação integral.

Além dos conhecimentos acadêmicos, os estudantes precisam de oportunidades para desenvolver autonomia, convivência, responsabilidade e compreensão sobre saúde e qualidade de vida.

A Educação Física oferece experiências relacionadas às práticas corporais, à cultura do movimento e ao desenvolvimento de conhecimentos sobre diferentes modalidades esportivas. Essas atividades podem contribuir para ampliar a participação dos estudantes e proporcionar situações de aprendizagem que ultrapassam os conteúdos tradicionais.

O voleibol, por exemplo, permite trabalhar estratégias coletivas, comunicação e cooperação. Entretanto, acredito que esses benefícios dependem do planejamento pedagógico e da maneira como os estudantes são orientados durante as atividades.

Vivencio a relação entre esporte e desenvolvimento educacional também por meio da Associação de Voleibol Sul Catarinense (AVOSUL), entidade da qual sou fundador e presidente. A experiência com o desenvolvimento de atividades esportivas reforça minha compreensão de que o esporte pode oferecer oportunidades importantes de convivência, aprendizagem e participação social para adolescentes e jovens.

Na minha visão, a Educação Física e os projetos esportivos complementares precisam ser reconhecidos como espaços relevantes de formação, sem substituir as demais áreas do conhecimento.

O objetivo deve ser ampliar as experiências educacionais e contribuir para o desenvolvimento dos estudantes em suas diferentes dimensões.

O futuro dos jovens depende das oportunidades construídas no presente

Acredito que preparar os jovens para o futuro exige compreender que a educação não pode ser limitada à conclusão de uma etapa escolar ou à conquista de um certificado.

O ensino médio precisa oferecer conhecimentos, experiências e oportunidades que contribuam para a construção da autonomia e para a continuidade do desenvolvimento pessoal e profissional.

Isso significa reconhecer a importância de uma formação acadêmica consistente, capaz de preparar os estudantes para o ensino superior, para a educação profissional e para diferentes situações da vida em sociedade.

Entretanto, também considero indispensável observar as condições necessárias para que essa formação aconteça.

Professores valorizados, infraestrutura adequada, acompanhamento pedagógico e políticas de permanência são elementos que precisam fazer parte de qualquer planejamento educacional.

Os resultados das avaliações nacionais demonstram que o Brasil possui avanços a reconhecer, mas ainda enfrenta dificuldades importantes.

Por isso, acredito que as decisões relacionadas ao ensino médio precisam ser acompanhadas continuamente, considerando indicadores educacionais e a realidade das instituições de ensino.

Também entendo que os próprios estudantes precisam participar das discussões sobre sua formação.

Ouvir suas necessidades, compreender suas expectativas e reconhecer suas diferentes trajetórias pode contribuir para a construção de propostas pedagógicas mais adequadas.

A preparação para o futuro não deve ser confundida com a obrigação de decidir precocemente todos os caminhos profissionais. Os jovens precisam ter oportunidades de experimentar, conhecer possibilidades, desenvolver interesses e modificar suas escolhas ao longo da vida.

O ensino médio brasileiro precisa ser capaz de formar estudantes preparados para continuar aprendendo, enfrentar desafios e participar conscientemente da sociedade. Esse compromisso exige equilíbrio entre conhecimentos acadêmicos, desenvolvimento humano e oportunidades de qualificação.

Como professor, acredito que uma educação de qualidade deve ampliar horizontes, e não determinar previamente os limites de cada estudante.

A escola precisa oferecer condições para que os jovens reconheçam suas capacidades, compreendam suas responsabilidades e construam perspectivas compatíveis com seus interesses.

O futuro das novas gerações não depende exclusivamente das transformações tecnológicas ou das exigências do mercado de trabalho.

Ele também está relacionado às oportunidades educacionais disponíveis no presente e à capacidade da sociedade de garantir que essas oportunidades sejam acessíveis.

É nesse compromisso com a aprendizagem, com os professores e com o desenvolvimento integral dos estudantes que vejo um dos caminhos para fortalecer o ensino médio brasileiro e oferecer uma preparação mais consistente para os desafios que ainda estão por vir.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/aluno-focado-fazendo-teste-em-sala-de-aula-31875851/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *